Carta de Zacariotti – Embaixada do Chile

Carta de Zacariotti

Rio, GB, janeiro de 1965. (Embaixada do Chile)

Meu caro Dr. Rômulo:

Antes de deixar o País, o convívio dos entes queridos, dos meus amigos, desta Terra que, por manifestação superior da natureza, foi meu berço e por deformação do espírito humano foi meu cárcere; antes de seguir para o exílio, onde as saudades, as tristezas e as amarguras devem multiplicar-se como as ervas-daninhas, sinto-me no dever, mais que isto, na obrigação de dirigir-me ao Senhor para externar-lhe minha gratidão por tudo aquilo que fez por mim e por tudo aquilo que gostaria de fazê-lo e que as circunstâncias, independentes de sua vontade, o impediram.

Posso dizer, Dr Rômulo, que eu o conheci, verdadeiramente, no momento mais amargo de minha vida. Lamentavelmente é na adversidade, no sofrimento e na dor que se conhece realmente as pessoas. É nesses momentos difíceis que os Homens mostram as suas qualidades autênticas. Mesmo que eu fosse um bruto, um insensível e não nutrisse pelo seu gesto nenhum reconhecimento e apreço, aí estaria a História para recompensá-lo, pois é inegável que a sua voz foi a primeira e a mais corajosa que, dentre todas as outras, se ergueu nos Tribunais, na hora do ódio e da vingança. Enquanto a maioria de colegas nossos se ocultava nas trevas do oportunismo ou de interesses subalternos, o Senhor se expôs à luz do sol, armado apenas com sua coragem, sua honestidade e a vontade cega de cumprir um dever perante sua própria consciência. A verdade é que o Senhor infligiu uma severa derrota aos Golias do terror, nesta primeira batalha e emprestou ao povo de nossa terra um exemplo que poderá servir de móvel para a vitória dos sofridos sobre seus algozes. A semente do nazi-fascismo foi lançada nos quintais de nossos lares. Se na Alemanha de Hitler começou com o incêndio do Reichstag, aqui foi com a “marcha da família com Deus pela liberdade “; mas se houve realmente uma diferença na forma, no conteúdo ambos os regimes se equivalem. Digo-lhe isto, Dr. Rômulo, com a autoridade daqueles que viveram na própria carne a fúria desses antropoides do IPM; afirmo-lhe isto, recordando-me o sangue que vomitei, proveniente de pontapés e murros bestiais que desfecharam sobre mim; e é com um nó na garganta que me recordo das violentíssimas descargas de choque-elétrico que me aplicaram sobre as partes mais sensíveis do corpo, especialmente nos órgãos genitais. Diante de tais métodos animalescos, não só eu como outras vítimas desses símios, fomos transformados em “espiões” e “traidores” da Pátria que tanto amamos. Ante tanta desgraça, posso dar-me por feliz de não me ter acabado como o pobre Pawel Gutko que, entre outros gestos de loucura, comeu fezes várias vezes em minha presença e de outros companheiros de prisão. A mim pouco faltou para chegar a tal ponto de desvarios, pois cerca de uma semana, aproximadamente, perdi a noção do tempo e do espaço, não sabendo onde me encontrava, como me chamava e porque motivo ali me encontrava. O Senhor, com seu esforço gigantesco, arrancou-me das garras das alimárias e deve ainda se recordar que, na véspera de minha soltura, um médico do Exército havia me submetido a uma intervenção cirúrgica, na região umbilical, pois que os coturnos que deveriam empreender a defesa e proporcionar paz à família brasileira, haviam arrebentando-me os tecidos do abdômen. Sem saúde, sem qualquer recurso econômico ou financeiro, cheio de dívidas, usurpado em meu cargo que era a minha única fonte de renda, perseguido como um bandido, sabendo da invasão frequente de minha casa, pelos policiais, em flagrante desrespeito à minha esposa, só me restava a atitude que tomei: buscar asilo em um País onde os Direitos do Homem são respeitados, onde a Liberdade, longe de ser um simples dispositivo constitucional, é sobretudo um “modus vivendi”. De nada estava valendo-me as três Universidades que cursei e o fato de minha esposa ser médica, porque se aí continuasse, acabaria vendo meus filhos morrendo de fome e quem sabe se eu mesmo não teria meu fim nas mãos desses SS Tupiniquins? Apesar de haver resistido, de forma inexplicável, mais de 40 dias, toda sorte de coação e sevícias, não estou disposto a enfrentar novamente tais sofrimentos, porque não sou masoquista nem nasci com o estigma dos mártires e dos iluminados. Se resistir tanto, foi simplesmente porque amo o meu povo e tinha a consciência de que, de minha assinatura, naquele “depoimento forjado”, dependia a sorte do Governo e de centenas de famílias e minha resistência se prendia também à falsa ilusão de que, de uma hora para outra, os nazistas desistiram de suas intenções. Não me sinto derrotado, Dr. Rômulo, apenas tenho a consciência de que nesta guerra que agora se iniciou, perdemos a primeira batalha, mas conforta-me o espírito o saber que a História nos fará Justiça. Aqueles que pensam que me derrotaram se enganam, porque sou jovem e abraço uma causa que todos os homens honestos do mundo estão a meu lado: é a causa dos infelizes, dos injustiçados, dos sem-teto, dos Sem Terra, em uma palavra – dos que vegetam. A esses “Gangsteres” que assaltaram o Poder e encheram de vítimas indefesas os lares brasileiros, eu nem sequer tenho ódio, pois sei que um triste fim lhes está reservado, porque não passam de homens-vísceras, homens-estômagos, Pantagruéis insociáveis que merecem a nossa pena e, no máximo, o nosso desprezo. Eles plantaram o ódio e nós sabemos a safra que lhes espera…

Em breve seguirei viagem e tudo farei para transformar as angústias do desterro em energia a fim de que possa me preparar para poder ser mais útil à humanidade. Em Santiago, se a vida me der forças e as condições o permitirem, irei cursar a Universidade.

A certeza de que a cada noite negra corresponde sempre uma aurora cheia de luz, faz com que eu parta cheio de esperanças, esperanças para mim e esperanças para todos vós que aqui ficais.

Dr. Rômulo, o Senhor nem pode avaliar o quanto lhe sou grato, não só pelo que fez por mim, mas sobretudo o estímulo, a palavra de fé, a assistência moral que o senhor emprestou a minha sofrida companheira e minha bondosa e santa mãe. Espero que o senhor não me interprete mal, mas o Senhor foi mais do que um homem bom: foi um homem generoso. Por isso desejo, com a sinceridade que habita a alma das crianças, que todo o bem que me causou e aos meus, se transforme em felicidade para si, sua companheira e seus filhos.

Gostaria, finalmente, que me fizesse mais um favor: transmitir o meu reconhecimento e a minha gratidão a todos os membros da Ordem dos Advogados do Brasil que, num gesto de solidariedade e coragem, estiveram a seu lado, em defesa deste humilde colega que agora parte para o exílio, deixando-lhes um adeus e levando consigo uma saudade.

Do amigo

Zacariotti

PS Espero poder ter o prazer de hospedá-lo, acompanhado de sua esposa, em minha residência, em Santiago. Cá fica o meu futuro endereço:

Rancagua, 0268

Santiago – Chile.