por Wagner Gonçalves

Você vai morrer

Em 1948, logo depois de se formar em Direito, Rômulo Gonçalves foi, com seu cliente – e a pedido desse – acertar o recebimento de uma fazenda, objeto de uma ação reivindicatória transitada em julgado.

O fazendeiro estava sentado em uma cadeira de balanço, na varanda da casa, quando Rômulo e o seu cliente chegaram. Fizeram os cumprimentos iniciais, sem que aquele se dignasse a levantar-se. Rômulo explicou o motivo da viagem, ao mesmo tempo em que o seu constituinte, autor da ação, disse terem resolvido ir à fazenda para evitar a expedição de mandado judicial com o fim de reavê-la, bem como que estavam ali para dar “um tempo” para o fazendeiro e a sua família se mudarem, podendo chegar até a um ano. O fazendeiro disse que precisava falar com seu filho para decidir. Em seguida, chamou pelo mesmo, que, passados segundos, adentrou na varanda com carabina nas mãos e disparou, de imediato, dois tiros no cliente de Rômulo, o qual estava sentado ao seu lado. Ato contínuo, apontou a arma para o patrono, quando seu pai, o fazendeiro, disse: “não precisa matar o advogado. Ele vai nos prometer que não irá depor contra nós, senão também vai morrer”. Rômulo levantou-se e foi assertivo: “não posso prometer isso”. Sem falar mais nada, pegou nos braços o seu cliente já falecido e todo ensanguentado – com o sentimento de que receberia um tiro pelas costas – e o colocou no carro, dirigindo-se a Goiânia, até a delegacia. Entrou em contato com a família do morto e registrou a ocorrência. Só foi rever os assassinos na sessão do Júri, quando, novamente, deu testemunho do ocorrido. 

Os réus foram condenados, passaram anos presos e Rômulo só os viu, tempos depois, em loja de agropecuária, tendo o cuidado de ali não permanecer por muito tempo para, como dizia, “não dar sorte ao azar”

A fazenda foi entregue, em ruínas, aos herdeiros, após a obtenção do mandado judicial requerido por Rômulo. Os assassinos haviam destruído e queimado tudo: casas, curral, porteiras, pastos, árvores frutíferas etc.

O telegrama acima, do advogado Segismundo de Mello, conhecido por “Totó”, foi remetido a Rômulo por ocasião do infausto acontecimento, em outubro de 1948.

Ao longo da sua vida, Rômulo, com pesar, contava essa tragédia, que tanto o marcou no início da carreira. Terminara o curso em 1947, na Faculdade de Direito de Goiás. Tinha, na época, 30 anos.