Lábios Leporinos

Lábios Leporinos

por Wagner Gonçalves

Rômulo Gonçalves nasceu com os lábios leporinos. Seus colegas de escola, na inocência da idade, o chamavam de “aleijadinho”: “aleijadinho passa a bola”! Rômulo contava isso sempre com certa melancolia. Fez a primeira operação em Araguari (MG), no ano de 1928, quando tinha 10 anos, por empenho e insistência de seu parente Walter Rocha, primo de seu pai, por quem sempre teve muita estima. A operação não foi bem-sucedida, deixando marcas acentuadas nos lábios. Aos 19 anos, em 1937, foi a São Paulo, saindo da cidade de Bonfim, hoje Silvânia, – Goiás, onde cursava o último ano no Ginásio Anchieta, em transporte ferroviário. Dia 01 de julho, submeteu-se à operação. Relata, em carta aos pais: “O médico que me fez a operação chama-se Dr. Mário Otobrini Costa da ‘Casa de Saúde Santa Inez. Antes eu disse a ele que sou pobre e por isto não poderia pagar o preço da operação. Perguntou-me de quanto eu podia dispor. Falei que no máximo de 200 $ – duzentos reis. Disse que era mesmo pouco, mas que ia arranjar tudo por isto e que “os outros pagariam por mim”, isto é, os ricos. Aqui tudo é no cobre (dinheiro), se não se morre de fome. Só a consulta custou-nos 20$.”

Terminada a operação, como não tinha quarto para ir, saiu pelo corredor do hospital, meio tonto e anestesiado, quando teve a sorte de encontrar com D. Lili, pessoa amiga de sua mãe, que o colocou no quarto em que um sobrinho dela tinha sido operado e estava se recuperando. Ali ficou até se sentir melhor e, ainda no mesmo dia, já noite, dirigiu-se à pensão onde morava seu parente, João da Paixão, “pessoa boníssima”, diz. João lhe deu toda a assistência. Na pensão, relata, “há uma velha, que é mesmo uma mãe para mim. Faz mingau, “quenta” leite toda hora; chama-se D. Maria. Ela gosta muito de nossos parentes que aqui vieram (parentes de Catalão e Corumbaíba, Goiás). Pergunta por todos. Durmo junto com o João. Só vendo a bondade dele. Quase não se meche na cama para me não incomodar . Tenho passado uma vida de ‘Rei’. O médico cortou até em cima e costurou. Por enquanto não sei se ficou bem feita, porque o lábio ainda está bem inchado.” No final, relata, “não se incomodem comigo, tenho muito cuidado para depois não dizerem como da outra vez em Araguari” – a cirurgia não teria sido exitosa por descuidos no pós-operatório.

foto Rômulo 1937-12-17 lábios leporinos